Flávio Maluf e a Biomassa: Quando a Floresta Vira Energia Dentro da Própria Fábrica
by Flavio Maluf on julho 23, 2026 at 8:35 pm
Há vinte e dois anos, paletes descartados por empresas da região de Salto começaram a alimentar caldeiras industriais da Eucatex. Desde então, mais de 100 mil toneladas de resíduos de madeira são recolhidas por ano junto a mais de 300 parceiros cadastrados e convertidas integralmente em biomassa para geração de energia térmica nas próprias fábricas da companhia [1][2].Nenhum quilograma segue para aterro sanitário. Nenhum litro de óleo ou gás natural é acionado no processo que esse material alimenta. O mecanismo é simples na descrição e exigente na execução: resíduos de terceiros entram pela porta de coleta e saem como calor industrial. Dentro dessa cadeia, a floresta — ou o que sobrou dela depois de ser processada como embalagem, palete, retalho de móvel ou material de construção — vira energia dentro da própria planta que fabrica os produtos da Eucatex.Flávio Maluf comanda a Eucatex desde 1997. Engenheiro de formação pela FAAP, com estudos em administração de negócios em Nova York, ele chegou à empresa em 1987 pela área de exportação e importação antes de migrar para as operações industriais. A decisão de instalar a primeira linha de reciclagem de madeira em escala industrial do país, em 2004, refletiu esse histórico: a Eucatex montou a maior central da América Latina não como declaração de valores, mas como solução operacional para um problema simultâneo de custo energético e de descarte de resíduos [2].Da caçamba à caldeira: como funciona o sistemaO funcionamento é direto. A Eucatex disponibiliza caçambas a mais de 300 parceiros cadastrados, que podem agendar coletas gratuitas pelo programa. Os resíduos aceitos incluem paletes, pontaletes, caixas, retalhos de MDF, materiais da construção civil e podas de árvores — devidamente selecionados e sem presença de concreto ou contaminantes. A coleta cobre um raio de até 100 quilômetros a partir de Salto [1], cidade no interior de São Paulo onde está instalada a unidade principal de produção de chapas de fibra.Do ponto de coleta até a caldeira, o material passa por triagem e processamento. O cavaco resultante abastece as caldeiras da unidade madeireira de Salto, gerando a totalidade da energia térmica consumida na produção de chapas de fibra e MDF [4]. O sistema elimina a necessidade de óleo ou gás natural nesse ciclo produtivo. A ECTX Ambiental, transportadora própria criada pela Eucatex para essa finalidade, opera a logística de coleta e distribuição. O resultado é regularidade no abastecimento e rastreabilidade completa do material transportado [2].Em operações de biomassa, a regularidade no fornecimento às caldeiras é condição para que a substituição de combustíveis fósseis seja efetiva e não circunstancial. Uma frota terceirizada, sujeita a variações de disponibilidade e preço, comprometeria a previsibilidade operacional do sistema. A ECTX Ambiental resolve esse gargalo de dentro para fora.Parceiros como ecopontos, aterros sanitários e profissionais autônomos também integram a rede de captação. Um dos casos que a Eucatex destaca é o trabalho desenvolvido pela APAE de Salto, organização sem fins lucrativos que participa do recolhimento de resíduos e obtém retorno financeiro para a própria instituição [2]. O modelo de captação, portanto, distribui valor para além da cadeia industrial direta.Vinte anos de operação e uma expansão recenteO programa completou duas décadas de funcionamento em 2024. Em 2025, a Eucatex ampliou a iniciativa para além de Salto, integrando as unidades fabris Eucatex Fibra e Eucatex MDP, localizadas em Botucatu, ao escopo do Programa de Reciclagem [3]. A expansão aumentou a capacidade de captação de resíduos na região de Botucatu e replicou o modelo em mais de uma planta industrial. A biomassa de madeira reciclada tornou-se fonte energética presente em duas unidades da companhia simultaneamente.A IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores), associação que reúne as principais produtoras de florestas plantadas do país, publicou nota sobre a expansão em abril de 2026. No texto, descreveu o programa como “uma solução eficiente que alia desempenho ambiental, inovação e impacto positivo na cadeia produtiva” [3]. A menção, vinda de uma das principais referências do setor florestal brasileiro, situa a iniciativa da Eucatex como modelo setorial, não como caso isolado.A matemática ambiental do programaOs números apurados anualmente pelo programa têm ordem de grandeza concreta. As 100 mil toneladas de madeira reciclada que abastecem as caldeiras correspondem à preservação de 1 milhão de árvores de eucalipto que deixam de ser cortadas para uso energético [2]. O ciclo da água embutido nessa conta soma 15 milhões de litros — a quantidade que seria consumida no plantio das árvores poupadas [4].Esses dados revelam a lógica com que Flávio Maluf trata a gestão florestal da Eucatex: a floresta não é somente matéria-prima para produtos finais, mas um ativo de ciclo longo que precisa ser preservado onde possível. A Eucatex mantém hoje cerca de 48 mil hectares de florestas próprias no interior de São Paulo e produz 13 milhões de mudas clonais por ano, com uma das maiores taxas de incremento médio anual do setor no Brasil [5]. A captação de resíduos externos pelo Programa de Reciclagem reduz a pressão sobre esse ativo — menos árvores cortadas para caldeiras significa mais madeira disponível para os produtos de maior valor agregado da companhia.Outra dimensão do programa é o alcance social construído ao longo do tempo. A Eucatex também mantém, nas áreas de plantio, o Programa de Apicultura, por meio do qual comunidades do entorno produzem mel em pasto apícola das florestas da empresa. São mais de 270 toneladas de mel geradas nos últimos sete anos, em cerca de 11 mil hectares de eucaliptos. Mais de 15 famílias têm na apicultura uma fonte direta de renda [1]. A bioeconomia aplicada à cadeia florestal, nesse modelo, não se encerra na portaria da fábrica.Biomassa e solar: a composição da matriz energéticaO Programa de Reciclagem responde pela energia térmica das fábricas. A energia elétrica tem outra origem. Em 2023, a Eucatex concluiu um investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, em Castilho (SP) — a maior planta solar em operação no estado, com capacidade instalada de 269 MWp [5]. Junto à biomassa, esse investimento compõe uma matriz em que 50% do consumo energético total das unidades fabris da companhia provém de fontes renováveis [5].Essa proporção coloca a Eucatex em posição distante da média da indústria de transformação brasileira, setor que ainda depende amplamente de combustíveis fósseis para energia térmica. A combinação biomassa/solar não é apenas declaração de compromisso ESG: é estrutura de custo. A biomassa reduz o gasto com combustível nas caldeiras. A energia solar reduz a conta de eletricidade das fábricas. Os dois mecanismos atuam de forma complementar, e os dois partiram de decisões de investimento com horizonte de retorno de médio e longo prazo.A integração das duas fontes também distribui o risco energético da companhia. Dependência exclusiva de biomassa exporia as operações a variações no volume de resíduos disponíveis para coleta. Dependência exclusiva de energia solar geraria vulnerabilidade à sazonalidade de geração. A combinação dos dois sistemas, com diferentes perfis de entrega, resulta numa matriz mais robusta do ponto de vista operacional.A lógica de Flávio Maluf: floresta como base, não como custoFlávio Maluf descreve o manejo florestal da Eucatex como uma das bases competitivas da empresa desde os anos 1950, quando o grupo plantou suas primeiras áreas de eucalipto no interior paulista. O Programa de Melhoramento Genético mantido pela empresa produz 13 milhões de mudas clonais por ano, com foco em materiais de maior produtividade e melhor adaptação às condições locais [5]. A certificação FSC — obtida pela Eucatex em 1996, antes de a maioria das indústrias brasileiras considerar padrões internacionais de manejo florestal — é o elo formal que conecta essas práticas às exigências de rastreabilidade que clientes em mais de 40 países impõem [5].O desdobramento da base florestal em biomassa industrial segue essa mesma lógica. Se o eucalipto cresce para virar produto, os resíduos do processo de produção — e os resíduos de madeira de terceiros coletados no entorno das fábricas — também têm destinação técnica dentro da cadeia. Do ponto de vista de engenharia industrial, descartar esse material em aterro seria desperdiçar um insumo energético disponível a custo próximo de zero.Em julho de 2025, a Eucatex recebeu o World Finance Sustainability Award na categoria Industrial and Commercial Wood [5]. O reconhecimento, concedido pela revista britânica World Finance, citou especificamente as práticas de manejo florestal, reciclagem e energia renovável como razões para a distinção. Ao comentar o prêmio, Flávio Maluf afirmou que “a responsabilidade ambiental e o sucesso empresarial podem caminhar lado a lado” — formulação que descreve, com precisão, o que o Programa de Reciclagem de Madeira demonstra operacionalmente há mais de duas décadas.A expansão do programa para Botucatu em 2025, os R$ 300 milhões investidos na usina solar, os 48 mil hectares de floresta própria e os 13 milhões de mudas produzidas anualmente compõem um conjunto de decisões industriais que convergiram numa mesma direção antes que qualquer pressão regulatória ou de mercado tornasse esse caminho obrigatório. Nos mercados internacionais para onde a Eucatex exporta — mais de 40 países, com os Estados Unidos como principal destino — essa anterioridade importa. A gestão ambiental tratada como vantagem construída ao longo do tempo, e não como resposta a exigências externas, é parte do argumento competitivo que a empresa apresenta há décadas.Fontes[1] IBÁ — “Atividades florestais da Eucatex: bioeconomia de ponta a ponta”. Disponível em: https://iba.org/atividades-florestais-da-eucatex-bioeconomia-de-ponta-a-ponta[2] Eucatex (Blog Morar Bem) — “Eucatex tem maior central de reciclagem de madeira em escala industrial da América Latina” (2022, atualizado em 2026). Disponível em: https://www.eucatex.com.br/blog/eucatex-tem-maior-central-de-reciclagem-de-madeira-em-escala-industrial-da-america-latina-2/[3] IBÁ — “Avanço na economia circular pelo Programa de Reciclagem da Madeira da Eucatex” (29 abr. 2026). Disponível em: https://iba.org/comunicacao/noticias-do-setor/avanco-na-economia-circular-pelo-programa-de-reciclagem-da-madeira-da-eucatex/[4] Mais Floresta — “Programa de Reciclagem de Madeira da Eucatex se destaca por pioneirismo e inovação no setor” (14 jun. 2024). Disponível em: https://maisfloresta.com.br/programa-de-reciclagem-de-madeira-da-eucatex-se-destaca-por-pioneirismo-e-inovacao-no-setor/[5] FinancialContent / AB Newswire — “Flavio Maluf Leads Eucatex to World Finance Sustainability Award 2025 for Industrial and Commercial Wood Excellence” (7 jul. 2025). Disponível em: https://markets.financialcontent.com/stocks/article/abnewswire-2025-7-7-flavio-maluf-leads-eucatex-to-world-finance-sustainability-award-2025-for-industrial-and-commercial-wood-excellence
Flávio Maluf e o Papel da Educação Ambiental na Formação de Mercados Sustentáveis
by Flavio Maluf on julho 23, 2026 at 8:34 pm
No dia 16 de setembro de 2025, cerca de 140 alunos do sexto ano de escolas públicas de Bofete percorreram 600 metros dentro de uma área florestal gerida pela Eucatex. A trilha havia sido inaugurada naquela manhã. Os estudantes passaram pela sombra de um jatobá centenário, visitaram o Bosque dos Macacos e chegaram à Vila das Abelhas, onde colônias de abelhas jataí, nativas e sem ferrão, vivem entre as árvores. [1]A Eucatrilha é nova. O programa que ela integra não é. O Programa de Educação Ambiental (PEA) da Eucatex existe desde 1999. Passou por mais de 28 mil alunos ao longo de 26 anos. E a compreensão que o orienta, de que formar pessoas para entender o ambiente é também formar mercados que valorizam esse entendimento, atravessa cada decisão que Flávio Maluf tomou à frente da empresa desde que assumiu a presidência, em 1997. [2][3]Vinte e Seis Anos de Escola no Meio da FlorestaO PEA nasceu no mesmo ano em que o Brasil promulgou a Lei 9.795, de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental. [4] A coincidência tem peso. Muitas empresas aguardaram a regulamentação para agir. A Eucatex já organizava o programa naquele mesmo ano, a partir de suas áreas florestais no interior paulista.O modelo é exigente no conteúdo. Alunos de escolas públicas de Bofete e de Salto visitam a Casa da Natureza, o centro físico do programa instalado na fazenda de pesquisa e no viveiro de mudas da empresa em Bofete. As sessões são conduzidas por biólogos e engenheiros ambientais. O roteiro abrange fauna, flora, recursos hídricos, silvicultura e manejo de resíduos. O conteúdo não é genérico: cobre o ciclo do eucalipto plantado, a cadeia do painel de madeira, o funcionamento de um viveiro de mudas clonais. [3]Em 26 anos, o programa foi suspenso em 2020 e 2021 por causa da pandemia. Em 2022, as atividades migraram para o formato remoto. Em 2023, voltaram ao presencial. Nos cinco anos anteriores à pandemia, mais de 1.000 alunos participaram. Ao longo de toda a sua história, o número supera 28 mil. [3] A Eucatrilha, inaugurada em setembro de 2025, é o investimento mais recente nessa trajetória: 600 metros de trilha projetada para transformar uma floresta gerida em sala de aula permanente. [1]A Lógica das AbelhasA Vila das Abelhas não é um elemento decorativo. O Programa Polinizar, mantido pela Eucatex há mais de 20 anos nas regiões de Botucatu e Itatinga, trabalha com apicultura e sustentabilidade de forma integrada. As abelhas jataí que vivem na Eucatrilha estão lá porque há floresta suficiente para sustentá-las. A presença delas mede, de forma concreta, a saúde do ambiente ao redor.Naiara Carvalho, gerente de Tecnologia, Meio Ambiente e ESG da Eucatex, descreveu a intenção da trilha na cerimônia de inauguração: “Queremos que todos os visitantes, especialmente crianças, saiam daqui com uma nova percepção sobre a importância e a responsabilidade de cada um de cuidar da natureza e do papel que a silvicultura desempenha no contexto socioambiental.” [1]A declaração é institucional, mas aponta para um efeito documentado. Ao longo dos anos, a Eucatex contratou profissionais que participaram do PEA quando eram estudantes. [3] A educação ambiental retorna ao sistema produtivo na forma de capital humano que já compreende as premissas do negócio antes de entrar na empresa. Esse não é um resultado que se planeja em um trimestre.FSC, Exportações e a Credencial que Não Se Compra com DecretoA Eucatex possui certificação FSC desde 1996, três anos antes da lei que tornou a educação ambiental uma política pública nacional. A certificação é um padrão de cadeia de custódia que rastreia madeira da floresta até o produto acabado. Ela exige envolvimento com comunidades locais, transparência nos processos florestais e atenção sistemática aos impactos socioambientais.A empresa exporta para mais de 40 países. Os mercados de piso laminado e painéis de madeira na Europa e nos Estados Unidos são os que mais frequentemente exigem certificação de origem sustentável como condição de acesso. A Eucatex North America, subsidiária com base na Flórida, é o braço operacional desse posicionamento. As exportações correspondem a aproximadamente 25% da receita total da companhia.Certificação não se mantém por declaração interna. Ela exige uma cadeia de fornecimento, um entorno comunitário e uma força de trabalho que compartilham premissas de manejo. Um comprador europeu que exige FSC como condição contratual está, na prática, perguntando se a empresa tem substrato social suficiente para sustentar esse padrão ao longo do tempo. O PEA é parte da resposta. Vinte e seis anos de programa, com 28 mil alunos passando por um viveiro de mudas clonais e aprendendo sobre ciclos hídricos, constroem um tipo de reputação que nenhuma campanha de marketing produz.100 Mil Toneladas e 300 ParceirosA educação ambiental aplicada à cadeia produtiva aparece em outra iniciativa. O Programa de Reciclagem da Madeira existe desde 2004 e opera a maior central de reciclagem de madeira em escala industrial da América Latina, em Salto. Em 2025, a Eucatex expandiu o programa para as unidades fabris de Eucatex Fibra e Eucatex MDP, atendendo também o município de Botucatu e a região. [5]O modelo recebe resíduos de madeira e encaminha mais de 100 mil toneladas por ano para uso como biomassa nas caldeiras industriais. Isso reduz o uso de combustíveis fósseis, diminui a emissão de gases de efeito estufa e evita o descarte inadequado em aterros. A rede de parceiros passou de 300 empresas. Cada uma delas recebe relatórios mensais com os volumes gerados e destinados. Caçambas e coletas são gratuitas, agendadas pelo telefone 0800 77 01 909. [5]A mecânica tem um componente educacional preciso. Os relatórios mensais transformam os parceiros em agentes que mensuram o que descartam. Eles deixam de tratar o resíduo de madeira como problema logístico e passam a vê-lo como insumo. Trezentas empresas aprendendo a calcular o que geram e para onde isso vai: isso é educação ambiental na cadeia produtiva, sem o nome.Flávio Maluf e a Conta de Longo PrazoFlávio Maluf preside a Eucatex desde 1997. Formado em Engenharia Mecânica pela FAAP em 1985 e com estudos em administração de empresas na Universidade de Nova York, ele entrou na Eucatex em 1987 pelas operações de exportação e importação, antes de migrar para a área industrial.A receita da Eucatex chegou a R$ 3,1 bilhões em 2025. A companhia mantém aproximadamente 48 mil hectares de florestas próprias no estado de São Paulo e produz 13 milhões de mudas clonais por ano. O investimento na Usina Solar Castilho, o maior parque solar do estado de São Paulo, somou R$ 300 milhões. Hoje, 50% da energia consumida nas fábricas vem de fontes renováveis. Para 2026, o capex previsto é de aproximadamente R$ 500 milhões, voltado à expansão florestal, modernização industrial e possíveis aquisições no Brasil e em mercados vizinhos.Esses números são construídos sobre ativos que não aparecem no balanço trimestral. A certificação FSC mantida desde 1996. Os 28 mil alunos que cresceram sabendo o que é um clone de eucalipto. Os 300 parceiros de reciclagem que aprenderam a transformar resíduo em biomassa. A reputação de uma empresa que não suspendeu o programa de educação ambiental quando ficou mais fácil fazer isso.A Eucatrilha tem 600 metros. Ela existe porque, em 1999, alguém decidiu que investir em educação ambiental era parte do modelo de negócios, não um custo paralelo. Vinte e seis anos depois, a empresa que tomou essa decisão exporta para mais de 40 países, sustenta 48 mil hectares de floresta certificada e tem 13 milhões de mudas crescendo por ano. A correlação não prova causalidade. Mas ela tampouco é coincidência.Notas[1] Eucatex. “Eucatex inaugura trilha ecológica em Bofete (SP) e apresenta novidades para a educação ambiental.” Eucatex Blog, 20 de outubro de 2025. https://www.eucatex.com.br/blog/eucatex-inaugura-trilha-ecologica-em-bofete-sp-e-apresenta-novidades-para-a-educacao-ambiental/[2] Informações institucionais sobre a trajetória de Flávio Maluf e a Eucatex constam de materiais públicos da companhia e do histórico editorial do grupo.[3] Eucatex. “Eucatex comemora 25 anos do Programa de Educação Ambiental.” Eucatex Blog, 18 de junho de 2024. https://blogeucatex.host.aatb.com.br/eucatex-comemora-25-anos-do-programa-de-educacao-ambiental/[4] Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Política Nacional de Educação Ambiental. Presidência da República, Brasil. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm[5] IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores). “Avanço na economia circular pelo Programa de Reciclagem da Madeira da Eucatex.” 29 de abril de 2026. https://iba.org/comunicacao/noticias-do-setor/avanco-na-economia-circular-pelo-programa-de-reciclagem-da-madeira-da-eucatex/
Da fábrica ao escritório: a rotina que explica o estilo de gestão de Flávio Maluf
by Flavio Maluf on julho 1, 2026 at 9:55 pm
O que torna a rotina de Flávio Maluf relevante é o que ela foi projetada para fazer, não apenas o quão consistente ela é. À frente da Eucatex desde 1997, ele divide a semana entre quatro dias de escritório e um dia dedicado inteiramente às fábricas. A agenda do escritório é preenchida por reuniões, análises de dados e discussões com as equipes. O dia de fábrica serve para outra coisa.Essa estrutura surgiu de uma convicção de que a gestão perde o contato com a realidade quando se confina às salas de reunião.A semana dividida em dois ritmosQuatro dias e um dia.No primeiro grupo, o trabalho de gestão: reuniões com equipes internas e com empresas parceiras, análise de desempenho operacional, decisões sobre produto, mercado e operação. A agenda começa às 8h45 e vai até as 18h30.A agenda não improvisa.A visita à fábrica, reservada ao quinto dia da semana, tem um propósito claro. Flávio Maluf descreve o hábito com uma justificativa direta: quer manter contato com a produção. Num setor em que o produto é físico, a distância entre a gestão e o processo produtivo representa um risco real. A visita semanal é o mecanismo que reduz essa distância.A Eucatex opera 8 unidades industriais: Salto com duas , Botucatu com duas , no interior de São Paulo, Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, uma em Betim , Minas gerais e a última em Quatro Barras, Paraná . Manter presença nessas operações, exige um calendário que reserve espaço para isso toda semana, não apenas quando há um problema a resolver.O chão de fábrica como fonte de dadoGestores que visitam fábricas apenas em momentos de crise chegam tarde.A visita semanal cria um fluxo contínuo de informação que os relatórios não capturam: o ritmo real da linha de produção, o que os operadores percebem antes que os números reflitam, onde o processo produz atrito. Esse tipo de dado só aparece quando quem decide está presente.Para Flávio Maluf, a presença na produção também desempenha uma função relevante na organização. Quando a liderança aparece no chão de fábrica com regularidade, isso sinaliza que o que acontece ali importa e que quem decide enxerga o trabalho das equipes de produção, não apenas os relatórios que chegam depois.Esse sinal tem peso na cultura de uma empresa industrial. A diferença entre um gestor que aparece e um que não aparece é perceptível para quem trabalha na linha de produção todos os dias. O contato com a equipe gestora é fundamental para descobrir talentos e reter colaboradores .As equipes sabem a diferença.A Eucatex produz 12 milhões de mudas clonais por ano, opera 48 mil hectares de florestas próprias de eucalipto e exporta para mais de 40 países. Manter a qualidade e a consistência necessárias para operar nessa escala requer que a gestão conheça a operação por dentro, não apenas pelos números consolidados.Leitura como método de trabalhoO entre as 6:30 e 7:45 durante a semana Flávio Maluf inclui ciclismo e natação , intercalados.Inclui também leitura. Publicações do setor, notícias do mercado, produtos correlatos. A distinção que ele faz é relevante: o final de semana relaxa, mas o hábito de buscar ideias não para. As ideias identificadas na leitura entram na semana seguinte como pauta de discussão com a equipe, para avaliar o que pode ser implementado.O ciclo entre a observação externa e a decisão interna é contínuo.Semana após semana.A rotina é o que sustenta esse ciclo.A ferramenta de gestão que ele cita para acompanhar o desempenho operacional é o QlikView, uma plataforma de análise de dados de negócios. A escolha é consistente com o perfil: um executivo com formação em engenharia mecânica pela FAAP e curso administração de empresas na NYU que mantém, décadas depois, o hábito de analisar os dados da empresa em vez de apenas recebê-los em resumo.A preferência pela análise direta reflete também uma postura em relação à atenção. Ligações telefônicas desnecessárias e conversas sem resultado são descritas por ele como fontes de distração a evitar. O tempo de trabalho é um recurso limitado e a agenda existe para protegê-lo.Uma gestão de R$ 3,1 bilhõesEm 2025, a receita da Eucatex alcançou R$ 3,1 bilhões.As exportações respondem por cerca de 25% desse total, com os Estados Unidos como principal destino, atendidos pela subsidiária Eucatex North America, sediada na Flórida. São mais de 40 países no portfólio de destinos. Esse alcance levou décadas de adaptação de produto a diferentes padrões técnicos e regulatórios. A empresa opera um marketplace B2B pioneiro no setor de pisos no Brasil, com aproximadamente 1 milhão de visitas anuais.Esses resultados têm muitas explicações possíveis: posição de mercado, portfólio de produtos, momento dos investimentos.Parte da explicação está na estrutura básica de como a empresa é gerida semana a semana, há quase trinta anos.Toda semana, sem exceção.A trajetória de Flávio Maluf à frente da Eucatex mostra que rotina e ambição não são opostas. A rotina é o que torna a ambição operacional.
Como Flávio Maluf Transformou a Sustentabilidade em Vantagem Competitiva Antes de Virar Tendência
by Flavio Maluf on julho 1, 2026 at 9:53 pm
Como Flávio Maluf Transformou a Sustentabilidade em Vantagem Competitiva Antes de Virar TendênciaEnquanto a maioria da indústria brasileira ainda debatia-se sobre se a certificação ambiental era um diferencial competitivo ou um custo desnecessário, a Eucatex já havia chegado às prateleiras da Home Depot com produtos rastreados e adaptados ao mercado norte-americano. A empresa havia obtido a certificação FSC quatro anos antes, em 1996, numa época em que o selo era praticamente desconhecido no Brasil e a demanda externa por produtos certificados ainda engatinhava.Flávio Maluf descreve esse tipo de raciocínio com uma lógica simples: antecipe-se às tendências, não reaja a elas. É um princípio que atravessa cada decisão relevante nos últimos trinta anos: da floresta ao painel solar, da muda clonal à subsidiária na Flórida.Quando a certificação era burocracia para todo mundo menos umCertificar-se no FSC em 1996 custou mais do que dinheiro. Custou explicação.Na época, havia pouquíssimas empresas florestais com essa certificação no Brasil. Os grandes clientes externos que hoje incluem a rastreabilidade ambiental como cláusula contratual ainda não existiam como pressão de mercado. A decisão da Eucatex não respondia a nenhuma demanda imediata. Respondia a uma leitura sobre para onde o mercado estava indo.Quatro anos depois, essa leitura se materializou em um contrato. A empresa tornou-se fornecedora relevante da Home Depot, relação comercial que permanece ativa até hoje.O número que contextualiza essa antecipação: hoje, 37% dos consumidores brasileiros dizem estar dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis, segundo pesquisa da Opinion Box e da Neogrid, publicada pela CNDL. No início dos anos 2000, esse número era irrelevante. O mercado que justificaria a certificação ainda estava em formação.O que interessava a Flávio Maluf era a trajetória de um mercado que ainda existiria.A floresta como infraestrutura, não como cenárioToda a cadeia parte da floresta.São 48 mil hectares de florestas próprias de eucalipto no interior de São Paulo, com produção de 13 milhões de mudas clonais por ano. O investimento em melhoramento genético das mudas coloca a empresa entre as que registram as maiores taxas de incremento médio anual do país. O eucalipto cresce em ciclos de colheita de até sete anos, bem abaixo das décadas exigidas por espécies madeireiras alternativas utilizadas na indústria.A cadeia não para na colheita.Madeira que sobra vira energia. Aparas e resíduos da produção alimentam um programa de reciclagem com mais de 300 parceiros, fechando o ciclo no próprio sistema. Desde 1999, o Programa de Educação Ambiental conecta as comunidades próximas às operações florestais à lógica de manejo sustentável que sustenta toda a operação.Floresta certificada, melhoramento genético, reciclagem integrada e educação ambiental: esse conjunto não foi construído de uma vez. Foi acumulada uma decisão ao longo de quase três décadas, cada peça reforçando a seguinte.A lógica é de engenharia, não de vitrine.O sol como próxima peça do sistemaA decisão mais recente nessa trajetória tem endereço certo: Castilho, no interior de São Paulo.O investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, a maior planta solar do estado de São Paulo, elevou a participação de fontes sustentáveis na matriz energética das fábricas para 50%. A decisão reposiciona estruturalmente o custo de produção a longo prazo, reduzindo a exposição à volatilidade dos combustíveis convencionais.Uma pesquisa da Abrainc e da Brain, realizada em 2021, mostrou que 66% dos entrevistados se dizem dispostos a pagar mais por imóveis com energia solar.O mercado consumidor final ainda está chegando lá. A infraestrutura de produção já chegou.A decisão em Castilho seguiu a mesma lógica da certificação FSC vinte e cinco anos antes: chegar antes da pressão do mercado, não depois.Da floresta ao mercado norte-americanoTrinta anos de antecedência produziram um resultado concreto.Em 2025, a receita alcançou R$ 3,1 bilhões. As exportações respondem por cerca de 25% desse total, com os Estados Unidos como principal destino, atendidos pela subsidiária Eucatex North America, sediada na Flórida. São mais de 40 países no portfólio de destinos, construído ao longo de décadas, com adaptação do produto a diferentes padrões técnicos, regulatórios e estéticos de mercados distintos.A presença americana foi construída antes da sustentabilidade virar mainstream nos Estados Unidos. A certificação FSC de 1996 e a relação estabelecida com a Home Depot nos anos 2000 abriram portas que concorrentes com histórico semelhante no Brasil não alcançaram, pois chegaram depois.Em 2023, o BTG Pactual adquiriu 33,4% do capital total da empresa. A entrada de um dos maiores grupos financeiros do país no quadro societário foi, entre outras coisas, um sinal externo de que o modelo construído ao longo dessas três décadas tem solidez suficiente para atrair capital institucional de primeira linha.Para 2026, o plano de investimentos prevê aproximadamente R$ 500 milhões (aumento de 40% em relação a 2025), destinados à expansão florestal, à modernização industrial e a possíveis aquisições no Brasil ou em mercados vizinhos, como a Argentina.A trajetória de Flávio Maluf à frente da empresa é, em boa medida, a história de alguém que apostou cedo numa mesa onde poucos tinham fichas.O mercado acabou chegando lá.
Flávio Maluf e a Arte de Crescer num Mercado que Já Parecia
by Flavio Maluf on junho 11, 2026 at 9:58 pm
Em 1997, havia quem dissesse que o setor de materiais de construção no Brasil estava saturado.O argumento não era absurdo. O mercado era maduro, os grandes players estavam estabelecidos e a margem para expansão parecia estreita. Quando Flávio Maluf assumiu a presidência da Eucatex naquele ano, herdou uma empresa já líder de mercado. Para muitos analistas da época, o trabalho consistia basicamente em administrar o que já existia.Essa leitura estava errada.O mercado saturado que não estavaA liderança de mercado tem dois modos de operação.No primeiro, a empresa no topo administra a posição, protege a participação e evita movimentos que possam comprometer o equilíbrio alcançado. No segundo, a posição de liderança é tratada como uma plataforma: a empresa usa o acesso, a escala e a credibilidade acumulados para entrar em territórios que concorrentes menores não conseguem alcançar.Flávio Maluf escolheu o segundo modo desde o início.Quando assumiu em 1997, a Eucatex operava com uma única unidade industrial em Salto, São Paulo. Hoje, a empresa tem três unidades: Salto e Botucatu, no interior paulista, e Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.Três unidades, onde havia uma.A expansão geográfica seguiu uma lógica de diversificação produtiva e acesso a mercados regionais que o modelo original não alcançava.A ideia central era direta: num setor que parecia esgotado, havia espaço para crescer porque havia produtos que ainda não existiam, mercados que ainda não haviam sido atendidos com qualidade adequada e tecnologia que ainda não havia sido aplicada na escala necessária.Inovação dentro da casa própriaO ponto de partida para crescer foi o desenvolvimento de novos produtos nas próprias operações, não a compra de concorrentes.A Eucatex atua em pisos laminados, divisórias, portas, painéis de MDF e MDP, chapas de fibra de madeira, tintas e vernizes. Cada linha representa uma aposta em segmentos nos quais a empresa lançou um produto desenvolvido para competir com os melhores disponíveis nos mercados externos, não apenas com o que havia na prateleira brasileira.Esse padrão de exigência tem origem específica. A Eucatex exporta para mais de 40 países e, desde os anos 2000, fornece a grandes redes norte-americanas. Competir nesses mercados exige um nível de qualidade e consistência que, inevitavelmente, eleva o produto também no mercado doméstico.Parte do que sustenta essa consistência é de natureza operacional. Flávio Maluf mantém uma rotina estruturada que inclui quatro dias por semana no escritório e um dia dedicado a visitas às fábricas. A presença regular na produção é o mecanismo pelo qual a liderança mantém contato direto com o ritmo real das operações, identifica gargalos antes que se tornem problemas e sinaliza aos times que a gestão enxerga o que acontece no chão de fábrica, não apenas nos relatórios.Em 2025, a receita da empresa alcançou R$ 3,1 bilhões. As exportações respondem por cerca de 25% desse total, com os Estados Unidos como principal destino, atendidos pela subsidiária Eucatex North America, sediada na Flórida.O digital como novo territórioO setor de construção e acabamento não tem vocação digital por tradição.Justamente por isso, quando a Eucatex lançou um marketplace B2B voltado ao segmento de pisos, o movimento chamou a atenção. A plataforma se tornou a primeira do tipo no setor de pisos no Brasil e registra hoje cerca de 65 mil visitas mensais, com aproximadamente um milhão de visitas anuais.A lógica do canal digital, conforme Flávio Maluf descreve em entrevistas, segue o mesmo princípio que orienta as decisões de produto: entender para onde o cliente está indo antes do cliente chegar lá. O marketplace criou um ponto de contato adicional que amplia o alcance da empresa sem comprometer a estrutura de distribuição existente.Esse movimento também reflete uma postura em relação ao marketing que ele descreve com clareza: preferência por estratégias de inbound, criação de conteúdo relevante e construção de relacionamento ao longo do tempo. A abordagem contrasta com o modelo tradicional do setor, centrado em catálogos físicos e na força de venda direta.O setor ainda está processando a mudança.Num mercado que parecia não ter mais onde ir, o canal digital abriu uma frente que simplesmente não existia vinte anos atrás.Quando o capital institucional valida a apostaEm 2023, o BTG Pactual adquiriu 33,4% do capital total da Eucatex.A entrada de um dos maiores grupos financeiros do Brasil como sócio minoritário foi uma validação externa do modelo construído ao longo de quase três décadas de gestão. Capital institucional de primeira linha não se associa a empresas sem uma tese clara de crescimento.Para 2026, o plano de investimentos prevê aproximadamente R$ 500 milhões (aumento de 40% em relação a 2025), destinados à expansão florestal, à modernização industrial e a possíveis aquisições no Brasil ou em mercados vizinhos, como a Argentina.O mercado que parecia saturado em 1997 gerou uma empresa com receita de R$ 3,1 bilhões, três unidades industriais, presença em mais de 40 países e um plano de expansão ativo para o próximo ciclo.A trajetória de Flávio Maluf à frente da Eucatex é, entre outras coisas, um argumento prático contra a ideia de que liderança de mercado é o fim de alguma coisa.É o começo de outra fase.