Flávio Maluf e a Arte de Crescer num Mercado que Já Parecia
by Flavio Maluf on junho 11, 2026 at 9:58 pm
Em 1997, havia quem dissesse que o setor de materiais de construção no Brasil estava saturado.O argumento não era absurdo. O mercado era maduro, os grandes players estavam estabelecidos e a margem para expansão parecia estreita. Quando Flávio Maluf assumiu a presidência da Eucatex naquele ano, herdou uma empresa já líder de mercado. Para muitos analistas da época, o trabalho consistia basicamente em administrar o que já existia.Essa leitura estava errada.O mercado saturado que não estavaA liderança de mercado tem dois modos de operação.No primeiro, a empresa no topo administra a posição, protege a participação e evita movimentos que possam comprometer o equilíbrio alcançado. No segundo, a posição de liderança é tratada como uma plataforma: a empresa usa o acesso, a escala e a credibilidade acumulados para entrar em territórios que concorrentes menores não conseguem alcançar.Flávio Maluf escolheu o segundo modo desde o início.Quando assumiu em 1997, a Eucatex operava com uma única unidade industrial em Salto, São Paulo. Hoje, a empresa tem três unidades: Salto e Botucatu, no interior paulista, e Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.Três unidades, onde havia uma.A expansão geográfica seguiu uma lógica de diversificação produtiva e acesso a mercados regionais que o modelo original não alcançava.A ideia central era direta: num setor que parecia esgotado, havia espaço para crescer porque havia produtos que ainda não existiam, mercados que ainda não haviam sido atendidos com qualidade adequada e tecnologia que ainda não havia sido aplicada na escala necessária.Inovação dentro da casa própriaO ponto de partida para crescer foi o desenvolvimento de novos produtos nas próprias operações, não a compra de concorrentes.A Eucatex atua em pisos laminados, divisórias, portas, painéis de MDF e MDP, chapas de fibra de madeira, tintas e vernizes. Cada linha representa uma aposta em segmentos nos quais a empresa lançou um produto desenvolvido para competir com os melhores disponíveis nos mercados externos, não apenas com o que havia na prateleira brasileira.Esse padrão de exigência tem origem específica. A Eucatex exporta para mais de 40 países e, desde os anos 2000, fornece a grandes redes norte-americanas. Competir nesses mercados exige um nível de qualidade e consistência que, inevitavelmente, eleva o produto também no mercado doméstico.Parte do que sustenta essa consistência é de natureza operacional. Flávio Maluf mantém uma rotina estruturada que inclui quatro dias por semana no escritório e um dia dedicado a visitas às fábricas. A presença regular na produção é o mecanismo pelo qual a liderança mantém contato direto com o ritmo real das operações, identifica gargalos antes que se tornem problemas e sinaliza aos times que a gestão enxerga o que acontece no chão de fábrica, não apenas nos relatórios.Em 2025, a receita da empresa alcançou R$ 3,1 bilhões. As exportações respondem por cerca de 25% desse total, com os Estados Unidos como principal destino, atendidos pela subsidiária Eucatex North America, sediada na Flórida.O digital como novo territórioO setor de construção e acabamento não tem vocação digital por tradição.Justamente por isso, quando a Eucatex lançou um marketplace B2B voltado ao segmento de pisos, o movimento chamou a atenção. A plataforma se tornou a primeira do tipo no setor de pisos no Brasil e registra hoje cerca de 65 mil visitas mensais, com aproximadamente um milhão de visitas anuais.A lógica do canal digital, conforme Flávio Maluf descreve em entrevistas, segue o mesmo princípio que orienta as decisões de produto: entender para onde o cliente está indo antes do cliente chegar lá. O marketplace criou um ponto de contato adicional que amplia o alcance da empresa sem comprometer a estrutura de distribuição existente.Esse movimento também reflete uma postura em relação ao marketing que ele descreve com clareza: preferência por estratégias de inbound, criação de conteúdo relevante e construção de relacionamento ao longo do tempo. A abordagem contrasta com o modelo tradicional do setor, centrado em catálogos físicos e na força de venda direta.O setor ainda está processando a mudança.Num mercado que parecia não ter mais onde ir, o canal digital abriu uma frente que simplesmente não existia vinte anos atrás.Quando o capital institucional valida a apostaEm 2023, o BTG Pactual adquiriu 33,4% do capital total da Eucatex.A entrada de um dos maiores grupos financeiros do Brasil como sócio minoritário foi uma validação externa do modelo construído ao longo de quase três décadas de gestão. Capital institucional de primeira linha não se associa a empresas sem uma tese clara de crescimento.Para 2026, o plano de investimentos prevê aproximadamente R$ 500 milhões (aumento de 40% em relação a 2025), destinados à expansão florestal, à modernização industrial e a possíveis aquisições no Brasil ou em mercados vizinhos, como a Argentina.O mercado que parecia saturado em 1997 gerou uma empresa com receita de R$ 3,1 bilhões, três unidades industriais, presença em mais de 40 países e um plano de expansão ativo para o próximo ciclo.A trajetória de Flávio Maluf à frente da Eucatex é, entre outras coisas, um argumento prático contra a ideia de que liderança de mercado é o fim de alguma coisa.É o começo de outra fase.
Da Engenharia ao Comando da Eucatex, Flávio Maluf Moldou uma Cultura de Gestão Própria
by Flavio Maluf on junho 11, 2026 at 9:55 pm
Quatro dias por semana, das 8h45 às 18h30, Flávio Maluf cumpre uma agenda fixa no escritório da Eucatex. Reuniões com os departamentos ocupam blocos programados. No quinto dia, ele vai às fábricas.Esse ritmo não mudou em quase três décadas. Flávio Maluf assumiu a presidência da Eucatex em 1997, aos 35 anos, após uma década de trajetória nos setores operacionais da companhia. A Eucatex é uma das maiores fabricantes de tintas decorativas do Brasil, com um portfólio que abrange ainda pisos, painéis, divisórias e chapas de fibra de madeira. Engenheiro mecânico formado pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em 1985, ele passou um ano em Nova York, frequentando cursos na New York University e trabalhando, antes de voltar ao Brasil.Flávio Maluf entrou na Eucatex em 1987 pelo setor de comércio exterior. Logo passou à área industrial, onde gastou sete anos projetando e erguendo duas fábricas do zero, uma voltada a tintas e outra a painéis MDP, num investimento total de US$ 200 milhões. Quando seu tio Roberto Maluf se aposentou da presidência, Flávio foi escolhido pela família para assumir o cargo.“Dedique-se e busque a perfeição naquilo que você faz”, aconselhou Flávio quando perguntado sobre sua postura empreendedora.Desde então, o faturamento anual do grupo cresceu mais de vinte vezes. A Eucatex emprega mais de 3.500 pessoas em seis unidades fabris no Brasil, mantém escritórios regionais e opera uma subsidiária própria em Atlanta, nos Estados Unidos. Exporta para mais de 40 países.Um engenheiro no comandoFlávio Maluf não se formou em administração. Sua lente é técnica, e isso se reflete nas decisões que tomou ao longo dos anos. Quando a Eucatex precisou de uma fonte energética mais barata para suas caldeiras, o executivo montou uma linha de reciclagem de madeira na própria fábrica de Salto, a primeira em escala industrial da América Latina, que hoje reprocessa mais de 100 mil toneladas de resíduos por ano.Quando o consumo elétrico das fábricas pesou no orçamento, investiu R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, a maior do estado de São Paulo, com capacidade de 269 MWp. “Hoje, 50% do consumo de energia elétrica em nossas fábricas vem desse tipo de energia. É uma grande conquista, totalmente alinhada com a nossa filosofia,” relatou Flávio Maluf.A formação em engenharia mecânica moldou um hábito particular na gestão de Flávio Maluf. Ele reserva um dia inteiro por semana para visitar as fábricas pessoalmente, acompanhando as linhas de produção e conversando com as equipes operacionais. Num setor em que muitos presidentes governam por planilhas, Flávio Maluf prefere ver as prensas funcionando.“As ideias vêm de ler revistas dos setores em que atuamos, da internet ou de visitar pontos de venda, observando produtos relacionados. Depois, discutimos com a equipe para ver quais delas levamos adiante,” explicou Flávio.Essa rotina de observação direta impulsiona o desenvolvimento de produtos. Em 2024, a Eucatex lançou o primeiro piso laminado quadrado em grande formato do Brasil, com dimensões de 90,6 x 90,6 cm, nunca vistas no mercado nacional de laminados. O produto, da linha Square dos pisos Eucafloor, recebeu o prêmio “Best in Show” na Expo Revestir 2024, na categoria “Melhor Piso Laminado.” “Nos antecipamos a algo que percebemos que realmente tinha demanda”, contou Flávio Maluf. O formato só foi possível porque a Eucatex trabalha com substrato HPP, um painel de eucalipto de alta densidade produzido internamente.No mesmo ano, a linha Acqua New de rodapés trouxe ao mercado peças feitas com partículas finas de madeira provenientes de florestas certificadas, combinadas com resina plástica de PVC, resultando em um compósito reciclável e impermeável. Também em 2024, o acabamento BP Poro SuperMatt introduziu nas Américas uma tecnologia europeia de painéis de madeira, com propriedades anti bactericidas e antifúngicas, por meio da proteção Bacterban®.Fracasso como Métrica de AmbiçãoFlávio Maluf fala sobre falhas sem rodeios.“A taxa de fracasso é diretamente proporcional à ambição de crescimento. Houve vários produtos lançados ao longo dos anos que não funcionaram, mas alguns funcionaram, e o saldo foi e é positivo. Reconhecer suas limitações é mais importante do que reconhecer suas habilidades,” afirmou.A Eucatex mantém um portfólio que abrange pisos, portas, divisórias, painéis de MDF e MDP, chapas de fibra, tintas e vernizes. Pouco menos da metade da receita vem de materiais para construção civil, e outra fatia semelhante atende aos setores de móveis e de revenda de painéis. Em novembro de 2025, a companhia venceu o prêmio “Melhor Produto, Linha Imobiliária” da Abrart, a Associação Brasileira dos Revendedores de Tintas, em competição com marcas como Coral, Suvinil e Sherwin-Williams.O Questionamento como MétodoQuando perguntado sobre gestão, Flávio Maluf recorre menos a declarações de princípios e mais a perguntas.“A partir da experiência que adquirimos ao longo dos anos, sempre nos questionamos: ‘Como podemos trabalhar melhor com a madeira?’’ Como podemos minimizar o desperdício? Como podemos tornar a cadeia produtiva mais eficiente?’” Explicou Flávio. “Dessas perguntas surgiram soluções e programas, e até novos negócios, que amanhã podem ser responsáveis pelo crescimento da empresa.”Essa mecânica de interrogação gerou resultados mensuráveis. A certificação FSC, obtida em 1996, fez da Eucatex uma das primeiras no setor de materiais de construção a adotar padrões ambientais formalizados. Cinco anos depois, a empresa se tornou a primeira do mundo a receber um certificado de produto sustentável da Home Depot. “Até hoje, somos um fornecedor relevante do segmento para eles”, afirmou Flávio Maluf.O mesmo hábito de questionar levou a Eucatex a digitalizar sua operação comercial. A empresa lançou um marketplace B2B pioneiro no segmento de pisos, que hoje recebe cerca de um milhão de acessos anuais e 65 mil visitas mensais orgânicas no Google. Flávio Maluf utiliza o QlikView como ferramenta de relatórios gerenciais para analisar o desempenho e orientar decisões sobre o desenvolvimento de produtos.“Nossa plataforma tem a vantagem de nos mostrar melhor quem é o consumidor da Eucatex”, observou o executivo. “E são essas informações que vão nos ajudar a desenvolver produtos de forma mais assertiva, a analisar tendências de compra e a aprimorar nossos processos.”Fora do ambiente corporativo, mantém uma rotina de exercícios que inclui ciclismo cinco vezes por semana, natação quatro vezes por semana e condicionamento físico duas vezes por semana.Ao ser perguntado o que diria ao seu eu mais jovem, Flávio Maluf respondeu com uma autocrítica. “Se eu pudesse voltar no tempo, acho que teria olhado para mais negócios fora do campo da minha família.”Os números recentes sugerem que o campo escolhido não ficou pequeno. Em 2025, a Eucatex registrou faturamento de R$ 3,1 bilhões e lucro líquido de R$ 273,4 milhões. Para 2026, a companhia planeja investir R$ 500 milhões, dos quais mais da metade será destinada à expansão florestal. Sob a liderança de Flávio Maluf, a Eucatex opera hoje com seis fábricas, com presença em mais de 40 países e conta com mais de 3.500 funcionários.
Flávio Maluf e os 50 milhões de árvores que sustentam a cadeia produtiva da Eucatex
by Flavio Maluf on abril 8, 2026 at 4:14 pm
Cinquenta milhões de árvores ocupam 48 mil hectares no interior de São Paulo. Cada uma delas faz parte de um cálculo industrial preciso.A Eucatex consome 1,8 milhão de metros cúbicos de madeira por ano, replanta cerca de 7.500 hectares por ano e produz 13 milhões de mudas clonais por ciclo. Flávio Maluf, presidente executivo da companhia desde 1997, ergueu essa operação florestal como base para um modelo que conecta silvicultura, manufatura e reciclagem em uma cadeia fechada.“Nascemos de uma base florestal. Plantamos eucalipto desde a década de 50 para a produção de chapas finas e painéis de eucalipto”, afirmou Flávio.A empresa existe desde 1951. Na década de 1960, passou a transformar eucalipto em forros acústicos, um uso incomum à época, quando o setor recorria majoritariamente a madeiras nativas. Hoje, a companhia é uma das maiores fabricantes de painéis MDF e MDP, pisos laminados, portas, divisórias, tintas e vernizes do Brasil, incluindo tintas decorativas. Aproximadamente 75% dessa receita vem diretamente da base florestal, segundo José Antônio Goulart de Carvalho, vice-presidente da empresa. Para referência, o Brasil ultrapassou pela primeira vez a marca de 10 milhões de hectares de florestas plantadas, dos quais 7,8 milhões são de eucalipto, com produtividade média nacional de 35,7 m³/ha/ano, quase o dobro da do Hemisfério Norte, segundo o Relatório Anual 2024 da Indústria Brasileira de Árvores.O Ciclo Florestal Fechado“Atualmente, investimos em melhoramento genético e na produção de mudas clonais. Nossas florestas têm um dos maiores IMAs (Incrementos Médios Anuais) do Brasil”, destacou Flávio Maluf.O viveiro operacional em Bofete, no interior paulista, ocupa 10 hectares e funciona desde a década de 1970. Dele saem as mudas que abastecem as fazendas de eucalipto da empresa. Cada etapa da cadeia florestal passa pela Eucatex, desde a seleção genética das mudas até o carregamento dos caminhões que abastecem as fábricas. Entre 2023 e 2024, a Eucatex destinou R$ 555,7 milhões em investimentos à manutenção de suas atividades, dos quais 56,74% foram destinados às operações florestais.A certificação FSC (Forest Stewardship Council), obtida em 1996 sob a gestão de Flávio Maluf, antecipou, em anos, a adesão do setor a padrões ambientais formalizados. Até julho de 2024, 9,53 milhões de hectares de florestas naturais e plantadas no Brasil estavam certificadas pela FSC. A Eucatex foi uma das primeiras a adotar o sistema. “Desde os anos 90, a Eucatex possui o selo FSC, o mais alto reconhecimento de sustentabilidade. Também possui a certificação ISO 14001, que atesta padrões internacionais de qualidade e gestão ambiental,” observou o executivo.Essas credenciais abriram portas concretas. Em 2001, a Eucatex se tornou a primeira empresa a receber um certificado de produto sustentável da Home Depot. “Até hoje, somos um fornecedor relevante do segmento para eles”, afirmou Flávio Maluf.Reciclagem Industrial e BiomassaA central de reciclagem em Salto, no interior de São Paulo, coleta resíduos de madeira num raio de até 100 quilômetros. Paletes, bobinas, pontaletes, retalhos de móveis e resíduos de construção civil chegam de mais de 300 empresas parceiras.São mais de 100 mil toneladas reaproveitadas por ano. A iniciativa preserva cerca de 1 milhão de árvores que deixam de ser cortadas e gera uma economia estimada de 15 milhões de litros de água por ano.“A partir da experiência que adquirimos ao longo dos anos, sempre nos questionamos: ‘Como podemos trabalhar melhor com a madeira?’’ Como podemos minimizar o desperdício? Como podemos tornar a cadeia produtiva mais eficiente?’” Explicou Flávio Maluf.Inaugurada em 2004, a linha de reciclagem foi a primeira em escala industrial da América Latina. Todo o material coletado vira biomassa para as caldeiras da unidade de madeira em Salto, substituindo a queima de óleo diesel e de gás natural por uma fonte mais econômica e menos poluente. Onde as florestas plantadas fornecem matéria-prima primária, a reciclagem recupera o que seria descartado e reinsere na produção.Energia Renovável e Resultados FinanceirosFlávio Maluf ampliou a lógica ambiental da Eucatex para além da madeira. A empresa investiu R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, a maior do estado de São Paulo, com capacidade de geração de 269 MWp, em parceria com a Comerc Energia.“Hoje, 50% do consumo de energia elétrica em nossas fábricas vem desse tipo de energia. É uma grande conquista, totalmente alinhada com a nossa filosofia”, relatou Maluf.Biomassa nas caldeiras, energia solar nas linhas de produção. A dependência de combustíveis fósseis diminuiu.Em 2025, a Eucatex publicou seu primeiro Relatório de Sustentabilidade, cobrindo de janeiro de 2023 a dezembro de 2024, incluindo o primeiro inventário de Gases de Efeito Estufa da companhia. No aspecto financeiro, em 2025, o faturamento consolidado alcançou R$ 3,1 bilhões. Para 2026, a previsão é de R$ 500 milhões em investimentos, com mais da metade voltada à expansão do reflorestamento.Flávio Maluf também instituiu, em 1999, o Programa de Educação Ambiental da Eucatex, voltado a estudantes de escolas públicas de Bofete e de Salto. “Além de disseminar informações sobre preservação ambiental, promovemos cursos de saúde e segurança, combate a incêndios e ações de primeiros socorros, formando moradores e profissionais”, explicou Flávio. Mais de 27 mil visitantes já participaram do programa. Outro projeto ligado às florestas, o Programa de Apicultura Polinizar, ativo desde 2004, proporcionou a produção de mais de 320 toneladas de mel nos últimos onze anos, beneficiando cerca de 30 famílias rurais.
Da Engenharia ao Comando da Eucatex, Flávio Maluf Moldou uma Cultura de Gestão Própria
by Flavio Maluf on abril 8, 2026 at 4:13 pm
Quatro dias por semana, das 8h45 às 18h30, Flávio Maluf cumpre uma agenda fixa no escritório da Eucatex. Reuniões com os departamentos ocupam blocos programados. No quinto dia, ele vai às fábricas.Esse ritmo não mudou em quase três décadas. Flávio Maluf assumiu a presidência da Eucatex em 1997, aos 35 anos, após uma década de trajetória nos setores operacionais da companhia. A Eucatex é uma das maiores fabricantes de tintas decorativas do Brasil, com um portfólio que abrange ainda pisos, painéis, divisórias e chapas de fibra de madeira. Engenheiro mecânico formado pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em 1985, ele passou um ano em Nova York, frequentando cursos na New York University e trabalhando, antes de voltar ao Brasil.Flávio Maluf entrou na Eucatex em 1987 pelo setor de comércio exterior. Logo passou à área industrial, onde gastou sete anos projetando e erguendo duas fábricas do zero, uma voltada a tintas e outra a painéis MDP, num investimento total de US$ 200 milhões. Quando seu tio Roberto Maluf se aposentou da presidência, Flávio foi escolhido pela família para assumir o cargo.“Dedique-se e busque a perfeição naquilo que você faz”, aconselhou Flávio quando perguntado sobre sua postura empreendedora.Desde então, o faturamento anual do grupo cresceu mais de vinte vezes. A Eucatex emprega mais de 3.500 pessoas em seis unidades fabris no Brasil, mantém escritórios regionais e opera uma subsidiária própria em Atlanta, nos Estados Unidos. Exporta para mais de 40 países.Um engenheiro no comandoFlávio Maluf não se formou em administração. Sua lente é técnica, e isso se reflete nas decisões que tomou ao longo dos anos. Quando a Eucatex precisou de uma fonte energética mais barata para suas caldeiras, o executivo montou uma linha de reciclagem de madeira na própria fábrica de Salto, a primeira em escala industrial da América Latina, que hoje reprocessa mais de 100 mil toneladas de resíduos por ano.Quando o consumo elétrico das fábricas pesou no orçamento, investiu R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, a maior do estado de São Paulo, com capacidade de 269 MWp. “Hoje, 50% do consumo de energia elétrica em nossas fábricas vem desse tipo de energia. É uma grande conquista, totalmente alinhada com a nossa filosofia,” relatou Flávio Maluf.A formação em engenharia mecânica moldou um hábito particular na gestão de Flávio Maluf. Ele reserva um dia inteiro por semana para visitar as fábricas pessoalmente, acompanhando as linhas de produção e conversando com as equipes operacionais. Num setor em que muitos presidentes governam por planilhas, Flávio Maluf prefere ver as prensas funcionando.“As ideias vêm de ler revistas dos setores em que atuamos, da internet ou de visitar pontos de venda, observando produtos relacionados. Depois, discutimos com a equipe para ver quais delas levamos adiante,” explicou Flávio.Essa rotina de observação direta impulsiona o desenvolvimento de produtos. Em 2024, a Eucatex lançou o primeiro piso laminado quadrado em grande formato do Brasil, com dimensões de 90,6 x 90,6 cm, nunca vistas no mercado nacional de laminados. O produto, da linha Square dos pisos Eucafloor, recebeu o prêmio “Best in Show” na Expo Revestir 2024, na categoria “Melhor Piso Laminado.” “Nos antecipamos a algo que percebemos que realmente tinha demanda”, contou Flávio Maluf. O formato só foi possível porque a Eucatex trabalha com substrato HPP, um painel de eucalipto de alta densidade produzido internamente.No mesmo ano, a linha Acqua New de rodapés trouxe ao mercado peças feitas com partículas finas de madeira provenientes de florestas certificadas, combinadas com resina plástica de PVC, resultando em um compósito reciclável e impermeável. Também em 2024, o acabamento BP Poro SuperMatt introduziu nas Américas uma tecnologia europeia de painéis de madeira, com propriedades anti bactericidas e antifúngicas, por meio da proteção Bacterban®.Fracasso como Métrica de AmbiçãoFlávio Maluf fala sobre falhas sem rodeios.“A taxa de fracasso é diretamente proporcional à ambição de crescimento. Houve vários produtos lançados ao longo dos anos que não funcionaram, mas alguns funcionaram, e o saldo foi e é positivo. Reconhecer suas limitações é mais importante do que reconhecer suas habilidades,” afirmou.A Eucatex mantém um portfólio que abrange pisos, portas, divisórias, painéis de MDF e MDP, chapas de fibra, tintas e vernizes. Pouco menos da metade da receita vem de materiais para construção civil, e outra fatia semelhante atende aos setores de móveis e de revenda de painéis. Em novembro de 2025, a companhia venceu o prêmio “Melhor Produto, Linha Imobiliária” da Abrart, a Associação Brasileira dos Revendedores de Tintas, em competição com marcas como Coral, Suvinil e Sherwin-Williams.O Questionamento como MétodoQuando perguntado sobre gestão, Flávio Maluf recorre menos a declarações de princípios e mais a perguntas.“A partir da experiência que adquirimos ao longo dos anos, sempre nos questionamos: ‘Como podemos trabalhar melhor com a madeira?’’ Como podemos minimizar o desperdício? Como podemos tornar a cadeia produtiva mais eficiente?’” Explicou Flávio. “Dessas perguntas surgiram soluções e programas, e até novos negócios, que amanhã podem ser responsáveis pelo crescimento da empresa.”Essa mecânica de interrogação gerou resultados mensuráveis. A certificação FSC, obtida em 1996, fez da Eucatex uma das primeiras no setor de materiais de construção a adotar padrões ambientais formalizados. Cinco anos depois, a empresa se tornou a primeira do mundo a receber um certificado de produto sustentável da Home Depot. “Até hoje, somos um fornecedor relevante do segmento para eles”, afirmou Flávio Maluf.O mesmo hábito de questionar levou a Eucatex a digitalizar sua operação comercial. A empresa lançou um marketplace B2B pioneiro no segmento de pisos, que hoje recebe cerca de um milhão de acessos anuais e 65 mil visitas mensais orgânicas no Google. Flávio Maluf utiliza o QlikView como ferramenta de relatórios gerenciais para analisar o desempenho e orientar decisões sobre o desenvolvimento de produtos.“Nossa plataforma tem a vantagem de nos mostrar melhor quem é o consumidor da Eucatex”, observou o executivo. “E são essas informações que vão nos ajudar a desenvolver produtos de forma mais assertiva, a analisar tendências de compra e a aprimorar nossos processos.”Fora do ambiente corporativo, mantém uma rotina de exercícios que inclui ciclismo cinco vezes por semana, natação quatro vezes por semana e condicionamento físico duas vezes por semana.Ao ser perguntado o que diria ao seu eu mais jovem, Flávio Maluf respondeu com uma autocrítica. “Se eu pudesse voltar no tempo, acho que teria olhado para mais negócios fora do campo da minha família.”Os números recentes sugerem que o campo escolhido não ficou pequeno. Em 2025, a Eucatex registrou faturamento de R$ 3,1 bilhões e lucro líquido de R$ 273,4 milhões. Para 2026, a companhia planeja investir R$ 500 milhões, dos quais mais da metade será destinada à expansão florestal. Sob a liderança de Flávio Maluf, a Eucatex opera hoje com seis fábricas, com presença em mais de 40 países e conta com mais de 3.500 funcionários.
Flávio Maluf e o Modelo de Economia Circular que Transforma Resíduos Industriais em Energia
by Flavio Maluf on março 30, 2026 at 6:52 pm
Paletes quebradas. Bobinas descartadas. Retalhos de madeira. Materiais que normalmente terminariam em aterros sanitários alimentam caldeiras e geram vapor nas fábricas de uma das maiores produtoras de materiais de construção do Brasil.Sob a gestão de Flávio Maluf, presidente desde 1997, a companhia desenvolveu um sistema de coleta de resíduos de madeira que se tornou referência em economia circular na América Latina. A operação recolhe materiais de mais de 300 empresas parceiras num raio de 70 quilômetros da unidade de Salto, no interior de São Paulo.O mercado brasileiro de conversão de resíduos em energia deve crescer a uma taxa superior a 5% ao ano até 2029, segundo projeções do setor. Flávio Maluf antecipou essa tendência há décadas.Pioneirismo na Reciclagem IndustrialA empresa adotou políticas ambientais muito antes da sustentabilidade se tornar pauta obrigatória em conselhos de administração. Foi a primeira na América do Sul a incorporar uma central de reciclagem no complexo fabril, utilizando sobras de madeira para gerar energia térmica.“Resíduos que seriam enviados para aterros são transformados em biomassa e utilizados em nosso sistema de produção”, explicou Flavio Maluf. “Essa tecnologia é mais econômica e tem menor impacto ambiental, pois não depende da queima de óleo ou de gás natural.”A central de reciclagem processa paletes, carretéis, passarelas e resíduos de madeira que podem conter pregos, papelão ou plástico. O material triturado abastece as caldeiras que fornecem vapor para os processos produtivos. Hoje, a instalação figura entre as maiores operações de reciclagem de madeira em escala industrial na América Latina.A Filosofia por Trás do SistemaFlávio Maluf atribui o desenvolvimento do programa a uma mentalidade de questionamento contínuo sobre a eficiência operacional.“A partir da experiência que adquirimos ao longo dos anos, sempre nos perguntamos: ‘Como podemos trabalhar melhor com a madeira?’ Como podemos minimizar o desperdício? Como podemos tornar a cadeia produtiva mais eficiente?’ Dessas perguntas, surgiram soluções e programas, e até novos negócios, que amanhã podem ser responsáveis pelo crescimento da empresa,” afirmou.Essa abordagem gerou benefícios que vão além da geração de energia. Os parceiros que fornecem resíduos recebem destinação adequada para materiais que, de outra forma, representariam custo e passivo ambiental. A companhia reduz sua dependência de combustíveis fósseis. Os aterros deixam de receber toneladas de madeira.Complemento Solar para a Matriz EnergéticaA conversão de resíduos em energia representa apenas uma parte da equação. Flávio Maluf direcionou R$ 300 milhões para a Usina Solar Castilho, a maior do estado de São Paulo, com capacidade de geração de 269 MWp. A parceria com a Comerc Energia viabilizou o projeto.“Hoje, 50% do consumo de eletricidade em nossas fábricas vem desse tipo de energia. É uma grande conquista, totalmente alinhada à nossa filosofia”, declarou Flávio Maluf.A combinação de biomassa proveniente de resíduos e energia solar fotovoltaica reduz a pegada de carbono das operações fabris, ao mesmo tempo que diminui a exposição às oscilações no custo da energia elétrica convencional.Base Florestal como Fundamento do CicloO modelo de economia circular baseia-se em uma operação florestal em grande escala. São 50 milhões de árvores distribuídas por 45 mil hectares de terra própria, com consumo anual de 1,8 milhão de metros cúbicos e plantio de aproximadamente 6 mil hectares por ano.“Nascemos de uma base florestal. Plantamos eucalipto desde os anos 1950 e o utilizamos para produzir chapas finas e painéis à base de eucalipto,” explicou Flavio Maluf. “Nosso investimento é constante e monitoramos o crescimento anual das florestas por meio de inventários.”Programas de melhoramento genético e viveiros de mudas clonais elevaram a produtividade das florestas. O Incremento Médio Anual (IMA) alcançado está entre os mais altos do país, e a capacidade de produção de mudas chega a 13 milhões de unidades por ano.Certificações que Validam o ModeloO programa de economia circular ganhou reconhecimento formal por meio de certificações internacionais. A companhia obteve o selo do Forest Stewardship Council (FSC) em 1996, antes de os padrões de sustentabilidade se tornarem requisito comum no setor de materiais de construção.“Em 2001, fomos a primeira empresa do mundo a obter a certificação de produto sustentável da Home Depot, uma gigante americana do setor. Até hoje somos fornecedores relevantes nesse segmento para eles”, afirmou Flávio Maluf.A certificação ISO 14001 complementa o selo FSC, atestando conformidade com padrões internacionais de gestão ambiental. Em 2023, a Forbes Brasil posicionou a empresa em 81º lugar na lista Agro100, que reconhece empresas do setor agrícola e florestal com desempenho destacado.Produtos que Fecham o CicloA lógica circular se estende aos produtos finais. A linha Acqua New de rodapés, lançada em 2024, combina partículas de madeira provenientes de florestas certificadas com resina plástica para criar componentes impermeáveis, duráveis e recicláveis. Flávio Maluf descreveu a linha como tendo “viés ecológico de fonte renovável, 100% reciclável e com emissão zero de gases de efeito estufa.”Outra inovação, a linha Square de pisos laminados, conquistou o prêmio principal na Expo Revestir 2024 na categoria de pisos laminados. O produto utiliza substrato HPP produzido com partículas alongadas de eucalipto, matéria-prima proveniente das florestas próprias da companhia.A trajetória de Flávio Maluf demonstra como princípios de economia circular, quando aplicados de forma integrada ao longo de décadas, podem transformar resíduos industriais em vantagem competitiva e reduzir o impacto ambiental de operações manufatureiras de grande escala.
